O Fluminense – O futuro chegou

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O futuro chegou

Mudanças na relação do homem com o trabalho exigem criatividade e senso empreendedor

Natanne Viegas, que trabalha como produtora de conteúdos digitais remotamente, é consciente de que faz parte dos que protagonizam uma transição e enxerga tanto vantagens quanto desvantagens nesses novos formatos

Foto: Douglas Macedo

Nada será como antes. As tecnologias chegaram para ficar e o mundo como o conhecemos se transforma em uma velocidade maior do que podemos acompanhar. No entanto, não podemos deixar de pensar em como sobreviver nesse contexto mutante e complexo. Qual será o futuro do trabalho? Como entender de que forma essas tecnologias vão mudar nossa forma de exercer as funções que nos garantem sustento? Para especialistas, a capacidade de empreender e identificar oportunidades parece ser a habilidade mais capaz de se adaptar e sobreviver a essa revolução, que cada vez mais está substituindo a figura do funcionário pela do trabalhador autônomo.

Podemos afirmar que, a curto prazo, viveremos algumas mudanças que, a médio prazo, se intensificarão e que, a longo prazo, pouca coisa permanecerá como é hoje. Isso porque, neste momento, vivemos um grande ciclo de digitalização, robotização, processos logísticos, assim como mudanças nas relações entre contratantes e contratados, destaca o coordenador acadêmico de digital business da FGV, André Miceli.

“A promessa de substituição da força de trabalho por máquinas é bem antiga, mas nunca se confirmou. Acredito até que, em muito pouco tempo, as pessoas terão inclusive entre cinco e dez fontes de renda diferentes. Isso porque a diminuição dos postos formais deve abrir espaço para as “microcontratações”, ou seja, a contratação de pessoas por um projeto ou tarefa. O que alguns autores chamam de “nuvem humana”, em alusão ao termo “nuvem de computadores”, que se refere à execução de tarefas de forma compartilhada. Assim, muita gente viverá do que hoje chamamos de freelancers e a lógica de plataformas como Uber e Airbnb vai se expandir para diversos segmentos, como médicos, designers, publicitários, entre outros serviços”, prevê Miceli.

Integrada às novas dinâmicas de trabalho desde o início da vida profissional, a estudante de publicidade Natanne Viegas, de 26 anos, que trabalha como produtora de conteúdos digitais remotamente, é consciente de que faz parte dos que protagonizam uma transição e enxerga tanto vantagens quanto desvantagens nesses novos formatos.

“Já cansei de responder à pergunta: você faz o que mesmo? Comecei a trabalhar com produção de conteúdo no início da faculdade, quando me contrataram para cuidar de redes sociais. Agora, também atuo com marketing de conteúdo. Tudo home office. Sei que a ideia de segurança financeira é muito importante para as pessoas, e ser freelancer tem seus altos e baixos. Nem sempre a demanda te deixa confortável financeiramente. Conheço profissionais que precisam de um ambiente corporativo para ter mais foco e outros que contam os minutos para conseguir trabalhar como desejam. Penso que, cada vez mais, as pessoas poderão procurar o melhor modelo para si”, prevê.

Gustavo Silva lançou um aplicativo que une o conceito de localização a um aplicativo de compras

Foto: Divulgação/ Marcos Samerson

Ainda hoje, no Brasil, apenas 18% dos jovens chegam às universidades, ou seja, mais de 80% vão cursar apenas o ensino médio. Assim, o grande desafio é saber em que momento, nesse novo cenário, esse jovem vai ter acesso a uma educação que o prepara para os desafios desse novo mundo, ressalta a professora Sandra Mariano, coordenadora do programa de pós-graduação em gestão e empreendedorismo da UFF.

“Hoje, para comercializar um produto, a pessoa conta com plataformas que solicitam apenas um cadastro. O mesmo acontece para criar uma empresa, através da modalidade do microempreendedor individual (MEI). Tendo isso, os meios de pagamento, como PayPal e as maquininhas de crédito e de débito, permitem vender e receber sem maiores dificuldades. No entanto, o que a gente precisa é mostrar para as pessoas como elas podem trabalhar com esses recursos. O empreendedorismo é isso, ajudar as pessoas a garimparem oportunidades que estão em torno delas”, explica Mariano.

O primeiro passo de inserção no mercado ficou muito facilitado, o que falta, segundo Sandra, é o entendimento dessa nova lógica e a preparação para identificar e aproveitar as oportunidades.

“Como construir a própria profissão com as habilidades que se tem? A educação empreendedora apresenta e ensina ferramentas para que as pessoas consigam enxergar o que é viável, prototipar para testar e, se for preciso, reformular até que ela consiga encontrar seu público e vender o seu produto ou serviço. Além disso, o processo de estar construindo coisas é muito gratificante, não só no resultado alcançado, mas durante todo o processo”, defende a acadêmica.

Na contramão da instabilidade econômica, as vendas on-line seguem em expansão com previsão de crescimento de até 15% em 2017, como aponta um estudo da Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (Abcomm). Uma realidade transformada em oportunidade pelo jovem empreendedor recém-formado Igor Macedo, de 23 anos, que ilustra bem a forma de atuação empreendedora.

“No curso Processos Gerenciais com ênfase em empreendedorismo na UFF, moldei meu projeto de marca de roupa, a Invictum, focado nas vendas por e-commerce, através de estratégias em mídias sociais, para todo o Brasil, pois identifiquei que o tempo do consumidor para frequentar lojas físicas é cada vez menor. Mas vale ressaltar que o empreendedor não é necessariamente um empresário dono do próprio negócio, mas, sim, uma pessoa que consegue visualizar as oportunidades e transformá-las em ação. O que é interessante mesmo para os que buscam empregos, pois é uma habilidade cada vez mais apreciada pelas empresas”, ensina o jovem empresário.

Para a professora Sandra Mariano, coordenadora do programa de pós-graduação em gestão e empreendedorismo da UFF, o grande desafio é saber em que momento, nesse novo cenário, o jovem vai ter acesso a uma educação que o prepara para os desafios desse novo mundo

Foto: Douglas Macedo

Historicamente, a adoção de uma nova tecnologia gerou a longo prazo o aumento dos postos de trabalho e a melhoria das condições de vida. Mas é fato que, a curto prazo, este processo não se dá de forma harmônica e coordenada, o que acarreta o declínio de profissões e demissões, explica a especialista em desenvolvimento profissional Claudia Klein. Segundo ela, o avanço da tecnologia faz com que hoje todas as oportunidades sejam necessariamente pensadas sob o viés digital.

“A utilização cada vez maior de máquinas em atividades de trabalho repetitivas e muitas vezes perigosas leva os profissionais a se deslocarem para outras atividades, muitas delas profissões novas, criadas a partir das tecnologias. Marketing digital, serviços para mobile, mídias sociais, nichos de atuação do direito na internet, bloggers, gestão de dados, sustentabilidade, entre outros, são bons exemplos. No entanto, independente disso, criar seu próprio emprego, empreender, tem sido uma realidade para muitos brasileiros no contexto atual. Uma pesquisa de 2016 do Global Entrepreneurship Monitor (GEM) revelou que 57% dos brasileiros empreenderam por oportunidade, ou seja, um número maior do que aqueles que empreenderam por necessidade ou por não conseguirem se inserir no mercado de trabalho formal”, destaca Klein.

Auxiliar no processo de transição para o digital também pode ser uma oportunidade que gera emprego e renda. Assim como um modelo de negócio da Bye Bye Paper, empresa que propõe o armazenamento de arquivos no espaço virtual, ou na nuvem, como a solução para as empresas entrarem de vez na era digital.

“Guardando na nuvem é possível ter seus arquivos e documentos armazenados em servidores altamente seguros com protocolos internacionais que garantem backup e disponibilidade de acesso. Fora as vantagens contra imprevistos como incêndio, falta de luz, alagamento, entre outros, e a redução do uso do papel. O único problema pode ser o custo dessa armazenagem, que, se mal calculado, acarreta despesas extras”, explica Camila Lima, gestora da unidade Niterói da Bye Bye Paper.

Igor Macedo moldou seu projeto de marca de roupa focado nas vendas por e-commerce, durante um curso de processos gerenciais na UFF

Foto: Divulgação

Ameaça e oportunidade ao mesmo tempo? O conceito de disrupção parece sintetizar tudo aquilo que se impõe como valor no novo mercado. A exemplo do Uber e Airbnb, o disruptivo altera o modelo de negócio de uma determinada indústria ou setor, tornando as empresas, que ainda utilizam do modelo tradicional, rapidamente obsoletas, como explica o diretor no Brasil da Techstars Startup Programs, Tony Celestino.

“A disrupção de mercado não é algo novo, a grande diferença, hoje em dia, é a velocidade com a qual ela ocorre. Empresas e pessoas interessadas em acompanhar essas disrupções precisam se envolver com o que acontece à sua volta, seja participando de eventos ou até mesmo fazendo investimentos no universo digital. Mas não acho que quem está criando um novo negócio deva se preocupar em estar criando algo disruptivo. Inovação não é algo que se compra ou que se cria do dia pra noite. Na verdade, de nada adianta construir espaços inovadores, contratar gurus e investir em ações inovadoras, se isso não fizer parte de uma visão estratégica da empresa”, afirma Celestino.

Conhecidos no Brasil como serviços baseados na localização do dispositivo, o uso dessa tecnologia terá um crescimento estimado em 29,8% entre 2016 e 2022. Lojas de varejo e shopping lideram a busca por esse serviço. De olho no que parece ser uma tecnologia disruptiva, o empresário Gustavo Silva, morador de Niterói, lançou o aplicativo “Oferta da Boa”, que une o conceito de localização a um aplicativo de compras. Uma plataforma gratuita para promoções onde o anunciante comunica as suas ofertas e serviços enquanto o usuário passa a ter acesso aos produtos, promoções, marcas e eventos que estão por perto.

“Percebi que o usuário hoje é carente de serviços que tragam boas oportunidades de forma instantânea e simples, que possam beneficiá-lo bem na hora em que ele está próximo do estabelecimento, marca ou evento. Outro diferencial desse aplicativo são as campanhas de fidelidade, que podem ser pontos, selos ou cupons exclusivos”, explica Gustavo.

Camila Lima atua com processo de transição das empresas para o universo digital

Foto: Douglas Macedo

A verdade é que toda mudança que testemunhamos hoje é apenas um vislumbre do que pode representar ser trabalhador nas próximas décadas. Mas se a possibilidade de trabalhar em casa de maneira autônoma, prestando serviços, vendendo ou desenvolvendo soluções, parece ser mais fácil, saiba que o jornalista Alexandre Teixeira tem suas ressalvas. Autor do livro “Rotinas Criativas”, que reúne histórias inspiradoras de profissionais que usaram criatividade para equilibrar vida profissional e pessoal, ele defende que, mesmo assumindo novos modelos de trabalho, a qualidade de vida ainda será um desafio.

“Não é verdadeira a ideia de que as pessoas que trabalham remotamente terão menos estresse. Isso porque, atuando dessa maneira, elas podem, inclusive, trabalhar durante muito mais horas ou o tempo todo. Trabalhar em casa também não quer dizer necessariamente qualidade de vida”, pondera Alexandre.

Longe dos registros de entrada e saída, o trabalhador do futuro, seja em home office ou co-working, precisa agora enfrentar os desafios da autogestão. No entanto, à medida em que se afasta do formato de expedientes, o profissional da contemporaneidade também tem espaço para avaliar a própria vida, de rever sua prioridades, como explica Teixeira.

“Existem possibilidades para quem tem mais flexibilidade no trabalho desenvolver uma rotina saudável e ter tempo para as coisas que gosta. Percebi em minha pesquisa dois pontos fundamentais. O primeiro foi uma mudança de mentalidade, que deixou de glamorizar a figura do workaholic, ou seja, a pessoa que só se interessa por trabalho e sacrifica tudo em nome disso. A segunda é a capacidade que esse pós-workaholic tem de trocar a quantidade de tempo por qualidade de tempo, nas atividades realizadas. Falei com pessoas de diferentes áreas e todas que conseguiram transformar criativamente suas rotinas estavam muito mais preocupadas em fazer suas horas de dedicação render da melhor maneira possível do que se dedicarem a uma imensa quantidade de horas trabalhadas”, conclui o autor.

Fonte: O Fluminense