VEJA – Compra de seguidores cria ‘celebridades’ nas redes sociais

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Compra de seguidores cria ‘celebridades’ nas redes sociais

Com oito mil reais qualquer pessoa pode se tornar um influenciador na internet, revela pesquisa

É possível se transformar em uma celebridade nas redes sociais da noite para o dia. Basta comprar likes, comentários e seguidores. Relatório da empresa de segurança Trend Micro mostra que é possível comprar 300 mil seguidores no mercado chinês por 2.600 dólares (cera de 8.000 reais).

Com 300 mil seguidores, o perfil passa a ser classificado com de sucesso pelas redes sociais. É uma forma de enganar o algoritmo, que determina a relevância de cada perfil com base em seu conteúdo e atividade na rede social. Como as postagens não são exibidas por ordem cronológica, perfis mais relevantes ganham preferência na hora de aparecer para outras pessoas.

Mas quem são as pessoas que compram esse tipo de produto? Na maior parte das vezes são candidatos a influenciadores digitais, que tentam convencer as marcas a investir neles. “Essas pessoas veem a compra como um investimento. Elas querem mais seguidores, curtidas e visualizações, porque quanto mais engajamento, supostamente mais você vale para as marcas”, diz o professor e coordenador de MBA em Marketing Digital na Fundação Getulio Vargas (FGV), André Miceli.

Para Cassio Politi, CEO da Tracto Content Marketing, as marcas precisam reavaliar a forma de medir a importância desses influenciadores. “As marcas estão avaliando o peso do influenciador digital pelos números, e não pela influência em si, que é a capacidade que eles tem de fazer uma mensagem seguir a diante”, afirmou.

Os compradores de likes utilizam sua relevância nas redes sociais para fechar parcerias e patrocínios com as empresas. Normalmente, essa importância é medida pela quantidade de seguidores e curtidas em postagens. Para a marca, a vantagem é associar seu nome a um perfil que tem capacidade de influenciar a opinião de dentro de determinados grupos. “As marcas deixam de atirar de metralhadora para ser um sniper, que tem um rifle de alta precisão”, diz Miceli.

Segundo ele, não tem nada de ilegal em comprar likes e curtidas. “É antiético porque, na prática, gera um número que não existe. A empresa vai lá e vende o anúncio para 20 mil seguidores, mas na verdade 5.000”, afirmou o professor da FGV.

Mesmo assim, segundo ele, o investimento falso pode trazer um engajamento real. “Quando sua conta atinge um número relevante gente de verdade te segue, é um efeito manada. O que era fake vira verdade. Mas o conteúdo é essencial para longevidade e qualidade da página”, continuou.

Máquinas chinesas

Entre os países que comercializam curtidas, comentários e seguidores, a China é de longe a nação que mais se destaca. “Eles pegam diversos celulares e colocam os funcionários para interagir com os aparelhos. [É uma tática] para conseguir relevância manualmente porque uma conta automatizada pode ser detectada pelos algoritmos, é uma das brechas que existe”, disse o especialista em segurança da Trend Micro, Igor Valoto.

Conhecidas como “fazendas chinesas”, esses locais podem operar mais de 10.000 celulares ao mesmo tempo. Na Índia também se instalam fazendas para a comercialização de curtidas, comentários e seguidores.

Por 50 rublos russos (cerca de 2,70 reais) é possível abastecer a conta com 100 curtidas. Ao desembolsar 100 rublos (5,40 reais) o internauta ganha mais 100 seguidores no Instagram ou VK – equivalente ao Facebook no país.

Apesar de o Brasil ainda não contar com fazendas ou máquinas de auto atendimento, Valoto não descarta essa possibilidade para o futuro. “Com certeza esse mercado vai se expandir e será cada vez mais comum. As pessoas estão bastante ligadas na relevância”.

Enquanto isso, o mercado brasileiro oferece outras opções. O Brasil Liker afirma trabalhar com perfis reais do mundo todo, inclusive brasileiros. O serviço pode incluir curtidas, seguidores e visualizações em vídeos – há também pacotes semanais e mensais para Facebook, Instagram, YouTube e Twitter. O pacote mais barato é o de curtidas (para Facebook e Instagram) – a partir de 7,99 reais dá para comprar 100 curtidas.

O site não pede senhas e oferece teste para os interessados no produto – uma amostra de quantos seguidores, curtidas ou visualizações você pode ter com o serviço. Há também emissão de nota fiscal.

Outra empresa brasileira, o Suba.Me, tem serviços para Facebook, Instagram, YouTube e Twitter. Diferentemente do Brasil Liker, o site oferece curtidas para todas as redes sociais, mas o preço é mais salgado. No Twitter, o pacote mais barato com 1.000 curtidas sai por 57 reais.

A empresa também não solicita senhas e os compradores recebem uma garantia de 45 dias para casos em que o Twitter exclui o perfil e ela perde a quantidade de seguidores. Nesse caso, há a reposição.

“Os algoritmos fazem buscas frequentemente. Então um dia você vai acordar com 30% a menos do número de seguidores que tinha”, afirmou Miceli.

Facebook e Instagram desenvolveram ferramentas para identificar perfis falsos e os de pessoas que compram curtidas e seguidores. Uma vez identificada a fraude, o perfil pode ser excluído ou a conta pode ser bloqueada.

Recentemente, o Instagram também lançou um recurso para bloquear spams automaticamente. Ambos os sites realizam limpezas diárias para excluir perfis falsos.

Para Politi, esse tipo de artifício tem vida curta. “Não acho que é um mercado que tem futuro, os mecanismos de identificação de artimanhas avançam muito rapidamente”.

Faculdade de influenciador digital

Seja qual for o futuro desse mercado de compra, se profissionalizar na área de digital influencer se tornou possível. A Unibra (Centro Universitário Brasileiro), no Recife, é a primeira instituição brasileira a oferecer um curso para formar líderes digitais. O ensino de dois anos engloba aulas de inglês comercial, modelagem e estética visual e até economia.

O curso surge na onda do sucesso de influenciados digitais no Brasil, como os youtubers – que são autores de oito dos 10 livros mais vendidos na Bienal do Livro do Rio de Janeiro de 2017.

Segundo o diretor geral da Unibra, Laércio Guerra, a procura é grande, principalmente entre os que trabalham com mídia digital nas regiões Sul e Sudeste. “Ainda não trabalhamos com o EAD (Ensino a Distância), mas se der certo iremos abrir um EAD para o curso no segundo semestre de 2018”.

Guerra se diz otimista sobre o futuro da nova especialização. “Do mesmo jeito que outros cursos se moldam, vamos mudar se necessário. A perspectiva é de que o influenciador digital sempre vai existir. O que muda é o formato e o curso vai se adaptar a isso”.

Os interessados já podem se inscrever no curso. Serão duas turmas, uma matutina e outra noturna, com 70 alunos por sala. A mensalidade será de 490 reais.

Casos como o do atriz Natallia Rodrigues mostram como as empresas e contratantes lidam com o potencial de influência nas redes sociais de cada um. Ela afirmou que perdeu um papel pelo “baixo” número de seguidores nas redes sociais – atualmente ela conta com 111 mil seguidores no Instagram.

A página Cenas da Teledramaturgia Brasileira repercutiu o depoimento de Natallia no Facebook.

Depois da publicação, a atriz Simone Gutierrez contou que também perdeu um papel por falta de engajamento nas redes sociais.

Para o professor da FGV, isso acontece porque as empresas precisam de volume para veicular suas propagandas. “As marcas precisam de números que impressionem”.

Politi afirma que as empresas erram ao olhar apenas para o número de seguidores, que pode ser facilmente manipulado. “Me assusta alguém tomar uma decisão assim, porque eles não olham a ressonância que aquela pessoa pode ter e sim para o número mais fácil e superficial que tem”.

Fonte: VEJA