VEJA – Investimento em bitcoin ainda pode valer a pena, dizem analistas

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Investimento em bitcoin ainda pode valer a pena, dizem analistas

Moeda virtual teve valorização impressionante em 2017 e pode ser uma aposta viável para quem procura alto risco e entende sua dinâmica

Quem comprasse um bitcoin há um ano e o vendesse na semana passada receberia mais de 19 vezes o valor investido. Mas quem repetisse a mesma estratégia desde o último domingo estaria sujeito a uma queda de quase 40% – incluindo uma perda de 25% apenas em um dia. Em meio a grandes oscilações, especialistas dizem que investir na criptomoeda ainda pode valer a pena, desde que com cautela e conhecendo quais são os riscos e limites desse negócio.

Apesar de ser chamado de moeda, o bitcoin se assemelha mais a um ativo financeiro – como uma ação de empresa. Isso porque apesar de ser considerado valioso, não tem características como aceitação ampla e nem uma referência do seu valor, por mudar de preço muito rápido.

Neste ano, começou cotado a 997 dólares (3.326 reais) e chegou a 19.783 dólares (66.015 reais) no último domingo. “Não se pode dizer que um carro vale 5 bitcoins, por exemplo”, explica Marcos Piellusch, professor de finanças da Fundação Instituto de Administração (FIA). “Essa referência não existe no mercado, porque a volatilidade é muito grande.”

Valorização

A falta de referência está ligada à natureza desse investimento virtual. Criado por entusiastas em tecnologia, o bitcoin é transacionado livremente pela internet, sem regulamentação nem empresa ou governo responsável por ele. Assim, a definição do seu valor é feita pelas corretoras, que são empresas que fazem a conversão por dinheiro do “mundo real”.

O valor do “câmbio” depende da oferta e demanda existente em cada uma delas. Os valores usados nesta reportagem são do índice do site Coindesk, que reúne informações de quatro empresas com alto volume de transações.

A grande oscilação ao sabor das negociações faz surgir o temor de que o valor do bitcoin esteja em uma “bolha” – ou seja, hipervalorizado. Os especialistas ouvidos por VEJA não entram em consenso sobre essa possibilidade. “É inegável que o preço subiu muito rapidamente. Por outro lado, ele tem seu valor, por ter utilidade ao facilitar transações internacionais. E o aumento de transações, a aceitação maior no Japão e nos EUA e a estreia na Bolsa de Chicago explicam a melhora no período recente”, diz Paschoal Baptista, sócio-líder de TI para a Indústria de Serviços Financeiros da Deloitte. “Está em uma bolha sim. Vai ter um dia que em que as pessoas vão se dar conta que o preço está muito alto. Daí, a cotação vai ladeira abaixo”, estima  André Miceli, coordenador de marketing digital da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Riscos

O que chama a atenção dos analistas é a quantidade de pessoas aderindo a uma aposta de altíssimo risco antes de fazer investimentos mais tradicionais como em ações. E isso mesmo sem conhecer seu funcionamento e limitações.

Além da oscilação do valor, há fatores como a possibilidade de perda das carteiras – espécie de senha pessoal de acesso aos bitcoins. Na última terça-feira, uma corretora sul-coreana declarou falência após hackers roubarem uma quantidade não revelada de carteiras dos seus clientes.

Outro fator que pode influenciar o desempenho futuro do bitcoin são as limitações técnicas. Uma transação demora pelo menos 10 minutos para acontecer, enquanto há outras moedas virtuais bem mais rápidas, como Litecoin e Ethereum.

A falta de regulamentação por governos é outro fator de incerteza, pois é possível que surjam proibições e restrições à moeda virtual, o que reduziria seu valor. E o avanço das criptomoedas está no radar das autoridades brasileiras. O Banco Central e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) já se manifestaram sobre o assunto, mas sem impor regras. Já a Receita Federal tributa ganhos com acima de 35.000 reais por ano nas operações com moedas virtuais.

Nesse cenário, uma recomendação dos especialistas é avaliar as empresas responsáveis pelas transações, que são quem definem regras e preços. “As corretoras trazem um risco inerente que é o tempo em que recebem os seus reais para converterem em bitcoins, ações ou similares e caso você deixe os seus bitcoins em custódia com eles, em vez de transferi-los para sua wallet[carteira]. Por esse motivo, a escolha de corretora para operar também é relevante”, diz Baptista.

Comportamento

O benefício trazido pelas criptomoedas como o bitcoin, de permitir transações seguras pelo uso da tecnologia chamada de blockchain, é apontado como um fator revolucionário e com bom potencial. “Não tenho dúvida que as moedas virtuais se tornarão correntes, a dúvida é se é o bitcoin será”, diz Miceli.

Os especialistas dizem que devido ao histórico recente – surgiu em 2009 – e as indefinições, é difícil prever o comportamento do bitcoin. A comparação com o ouro, feita porque o bitcoin também é finito, não é adequada. “O ouro já passou por várias crises. O bitcoin ainda não. Apareceu depois da crise global de 2008”, diz Pielluschi.

Perspectivas

Sabendo dos riscos, a criptomoeda pode ser uma aposta para quem procura investimento de alto risco. “Se o seu perfil de risco está adequado, se a sua carteira está adequada, não tem momento [para começar a investir], desde que tenha condições de assumir as perdas. É possível assumir um risco didaticamente”, recomenda Ricardo Rocha, professor de finanças do Insper.

Um alerta é ficar atento à ganância por altos ganhos, seja pela valorização recente, seja por sucessos anteriores. O comportamento do passado não garante resultado futuro. “Se você tiver um ganho muito bom, realize esse ganho. Venda e coloque o dinheiro na sua conta. Não queira ficar milionário com 1.000 reais”, diz Piellusch.

Para Sergio Tanaka, que investe na moeda virtual há sete anos, mesmo com a alta recorde, a perspectiva é de mais alta daqui a pouco. “Janeiro, historicamente, é um mês mais parado nesse negócio”, diz.

Fonte: VEJA