O Sul – Na internet teu passado te condena

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Na internet teu passado te condena

A pouco mais de 30 dias da cerimônia do Oscar, ainda não se tem a mínima ideia se a noite mais importante de Hollywood terá um apresentador ou não. Tudo porque o comediante Kevin Hart, escalado para o papel, caiu em desgraça quando vieram à tona textos de teor homofóbico que ele tuitou no passado.

Hart não é o primeiro (nem será o último) a pagar por posts antigos. Cotado ao Oscar de melhor roteiro pelo filme “Green Book”, Nick Vallelonga também corre risco de ficar fora da premiação, que anuncia sua lista final de indicados no próximo dia 22. Soube-se agora que, num tuíte de 2015, ele apoiou uma bravata islamofóbica do então presidenciável Donald Trump.
Longe do universo cinematográfico, o novo presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, teve “piadas” machistas e homofóbicas resgatadas de suas redes sociais. Diante da repercussão negativa nos últimos dias, deletou a conta do Facebook ontem mesmo.

Com o gigantesco volume de dados que produzimos nas redes sociais ao longo dos anos, ficou impossível controlar tudo o que se deixa para trás. E sempre haverá um post esquecido por aí.
Em breve, porém, esse mundaréu de rastros terá novas regras no Brasil, graças à Lei Geral de Proteção de Dados. Sancionada em agosto de 2018, ela entra em vigor em 2020 e garante ao usuário a propriedade de seus dados na internet. Ou seja, eles não vão mais pertencer aos sites, e sim ao próprio usuário.
“Acredito que em pouco tempo isso levará ao surgimento de uma base de dados, que vai centralizar todos os registros deixados na internet, em todos os sites”, prevê André Miceli, coordenador do MBA de Marketing Digital da Fundação Getulio Vargas.  “Teremos mais condições para determinar se o que expusemos no passado condiz com o que somos hoje. Algoritmos poderão usar a inteligência artificial para mapear nossos rastros e sugerir apagar comentários que destoem da nossa personalidade atual.”

O mundo muda, as pessoas mudam, e o que postamos, anos atrás, sobre determinado assunto polêmico segue lá. “Esse post envelheceu mal” virou um comentário recorrente nas redes. Muitas empresas sabem disso, a ponto de vasculhar o histórico dos que se candidatam a uma vaga de emprego. Em setembro de 2018, quando contratou a jornalista Sarah Jeong, o “New York Times” foi criticado por causa de tuítes que sua nova funcionária havia publicado. Para muitos, eles eram preconceituosos. O jornal respondeu que já havia “revisto” as redes dela antes da contratação – e que os comentários estavam O.K. pela empresa.

A autofiscalização passou a fazer parte da vida dos influenciadores. Após o caso do youtuber Júlio Cocielo, que perdeu patrocinadores após uma “piada” racista, influenciadores entraram numa corrida para apagar posts antigos comprometedores. Na época, o youtuber Felipe Neto disse que chegou a receber mensagens de colegas perguntando: “Cara, como que eu apago todos os tuítes?”.

“Hoje, o processo de amadurecimento das pessoas deixa suas opiniões expostas por vários anos”, diz Felipe, por e-mail.  “As pessoas ainda estão aprendendo a lidar com isso. Já fui muito criticado por opiniões que simplesmente deixei de ter há muito tempo. O importante é mostrar seu amadurecimento e como você se tornou uma pessoa melhor, admitindo os erros do passado.”

Se o futuro promete métodos mais sofisticados para resetar o que produzimos, o que acontece quando são os outros que falam de nós? O que fazer quando somos citados de algum jeito que prejudica nossa imagem?
Polêmico no Brasil e no mundo, o direito ao esquecimento é um conceito jurídico que permite desindexar determinados dados sobre alguém nos mecanismos de busca na internet. Ou seja: se você procura a informação no Google ou em qualquer outro buscador, não obtém resultado. Mesmo se for aprovada nos tribunais, porém, a ação não apaga conteúdo.

“Ao ser desindexada, a informação segue disponível. O link permanece online, só não surge na busca”, lembra Joana Varon, diretora executiva da Coding Rights, organização que trata de direitos humanos, gênero e tecnologia.
Além dos detalhes jurídicos, os desdobramentos sociais dessas postagens precisam ser discutidos, defende Sergio Branco, especialista em Direito Autoral, fundador e diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS Rio). Autor do livro “Memória e esquecimento na Internet”, que faz ressalvas pontuais ao conceito de “direito ao esquecimento”, ele acredita que uma parte do problema pode, sim, ser resolvida com leis. Outra parte, porém, depende mais de educação e compreensão.

“Não tem jeito. Precisaremos aprender a lidar com essa hipermemória e ser mais tolerantes com os erros do passado”, diz o pesquisador.  “Às vezes lembro de coisas que dizia quando tinha 18 anos e penso: como pude dizer isso? Mas as pessoas mudam, elas podem se arrepender. É complicado julgar os erros do passado com os olhos de agora.”

Fonte: O Sul