O Dia – Um exército de robôs é acionado para bombar notícias falsas na internet

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Um exército de robôs é acionado para bombar notícias falsas na internet

Estrutura conhecida como ‘fazenda de likes’ é responsável por impulsionar fake news e causar confusão na rede. Uma hashtag foi criada por esse tipo de sistema para abalar credibilidade de denúncias contra Sergio Moro

 

Veja como funcionam as fazendas de likes, que ajudam a propagar fake news na internet – Arte: Kiko

Brasília – Uma guerra de versões sobre o conteúdo virtual domina o cenário político no país nos últimos dias. Há uma semana, a hashtag #ShowDoPavão apareceu entre os assuntos mais comentados do Twitter, revelando uma notícia falsa que rapidamente se propagou nas redes sociais e até na imprensa envolvendo o jornalista americano Glenn Greenwald, editor do site The Intercept. A reação para abalar a credibilidade das reportagens do portal sobre o vazamento de mensagens atribuídas a procuradores envolvidos na Operação Lava Jato e ao ministro da Justiça, Sergio Moro, então juiz federal, revelam um universo obscuro da internet: as fazendas de like. Responsáveis por um exército de robôs conectados 24 horas por dia, a fraude virtual em grande escala tem a capacidade de pautar milhares de usuários de redes sociais ao interagir com publicações nas redes sociais.

Veja como funcionam as fazendas de likes, que ajudam a propagar fake news na internet – Arte: Kiko

O assunto foi levado até mesmo ao Senado. Em meio à audiência com a presença de Moro na última semana, o senador Flavio Bolsonaro, filho do presidente Jair Bolsonaro, citou a falsa versão que bombou no Twitter. Moro negou as acusações de que teria atuado em parceria com o MP para incriminar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. E ainda disse que as mensagens foram obtidas por intermédio de um hacker. A versão de Moro ajudou a construir a falsa narrativa criada pela hashtag #ShowDoPavão, que acusou o editor do portal de pagar mais de R$ 1 milhão em criptomoedas para que um hacker russo procurado pelo FBI invadisse celulares de autoridades.

Entretanto, especialistas no assunto confirmam a farsa. Emilio Simoni, especialista em segurança digital, diz que é impossível fazer extrato bancário de bitcoin, como anunciou a hashtag #ShowDoPavão. “Isso nem é possível. As fazendas de likes têm como objetivo impulsionar publicações em redes sociais em uma escala que não dá para fazer de forma anual. Com o uso de algoritmos, eles evitam uma identificação. Essa prática de manipulação da opinião pública tem movimentos estratégicos, geralmente relacionados à política”.

André Miceli, coordenador do MBA de Marketing Digital da FGV, diz que o Facebook está tomando precauções para evitar a propagação desse tipo de conteúdo, como reduzir a possibilidade de encaminhamento de mensagens. Segundo ele, esse tipo de iniciativa foi adotada na Índia, reduzindo a propagação de notícias falsas em até 20%. “O post ganha visibilidade por um burburinho e pelo aumento do engajamento. Isso é feito por robôs, mas atinge pessoas reais. As fake news mexem com a credibilidade da rede”.
‘Isso sufoca o debate político’, critica especialista

Em entrevista ao O DIA, Fábio Malini, pesquisador de Ciências de Dados e coordenador do Laboratório de Estudos Sobre Imagem e Cibercultura (Labic), fez uma análise casos como o da hashtag do Show do Pavão.

Como você avalia o caso?

Há denúncias contra o ministro feitas por jornalistas de alta qualidade e reputação. Com isso, surgiu a hashtag #VazaJato, como uma repercussão às denúncias. O Show do Pavão surgiu para ser um contraponto, para criar um ambiente pejorativo ao jornalista. Então, essa hashtag sufoca o debate político com publicações puramente ficcionais.

Por que ações como o Show do Pavão prosperam?

Um elemento importante é a tentativa corriqueira na literatura de bots (gíria usada para robôs), que é jogar o mundo da política na bizarrice. Aí, as pessoas falam de coisas toscas. A discussão deveria ser sobre um juiz em conversa com um procurador para acusar um réu e sobre a necessidade de imparcialidade. Essa tag serve como cortina de fumaça, impedindo que a indignação prospere na rede. Os bots desenvolvem um ambiente tóxico, evitando que pessoas com qualidade argumentativa entrem na discussão. As pessoas pensam: “Não vou perder tempo discutindo com esses malucos”.

Como as fazendas de like passaram a ser uma preocupação para a sociedade?

Elas ficaram conhecidas do público desde 2016 com a eleição de Donald Trump, nos EUA. Na época, foi divulgada a informação de que existiam empresas do Leste Europeu contratadas para ampliar a visibilidade de postagens favoráveis a ele em sites de pouca credibilidade, onde circulavam informações falsas. Isso afeta, principalmente, a política e o entretenimento.

O que precisa ser feito para minimizar o problema?

A métrica é a valoração em função de likes, compartilhamentos e comentários. O Instagram estuda o fim do like por isso. Contudo, os algoritmos regulam a reputação. Então, não há esperança de mudança enquanto essas plataformas continuarem tendo esses parâmetros.

Fonte: O Dia