O Globo – Como o fim da exposição de curtidas no Instagram impacta a vida e o bolso dos influenciadores

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Como o fim da exposição de curtidas no Instagram impacta a vida e o bolso dos influenciadores

A turma do “troco likes ” não vive um bom momento no Instagram. Nem os sites que vendem curtidas (dá para comprar um pacote de cem por cerca de R$ 0,65). Isso porque o Facebook, que controla o Instagram , anunciou, no último dia 17, que os usuários do Brasil, da Irlanda, da Itália, do Japão, da Austrália e da Nova Zelândia não têm mais expostos os likes de seus posts, numa segunda fase de um teste já realizado no Canadá. Com isso, só o dono da conta consegue ver quantas vezes o símbolo de coração foi clicado. O objetivo, disse a empresa, é acabar com a competição e fazer com que os perfis “se concentrem mais nas histórias”

Diante da mudança, como fica o bolso da turma que ostenta milhares de seguidores e ganha a vida com conteúdos patrocinados nas redes? “Nada muda”, diz Letícia Cordeiro, sócia da Urgh.us, agência que cuida da persona digital de várias celebridades. “Pode machucar o ego do influenciador, mas não prejudica o negócio.” Isso porque, diz ela, informações como alcance (número de contas únicas que viram o post) e impressões (total de vezes que ele foi visto) sempre foram restritas ao dono da conta. Tanto que as empresas que contratam influencers exigem um media kit , um relatório que compila os tais dados ocultos ao público em geral.

Acredita-se, então, que para ter um media kit “bombado” agora será preciso ir além da selfie bonita ou do “look do dia”. “Veremos a valorização do conteúdo. Há determinados assuntos que valem ser postados, mas não dão muitos likes. O fato de não ter que se preocupar se esse post flopou (termo usado para dizer que uma publicação não fez sucesso) já é uma coisa boa”, analisa Letícia.

Camila Coutinho, 2,4 milhões de seguidores Foto: Instagram

Mesmo com os especialistas pedindo calma aos que se sentiram censurados pelo Instagram, muita gente (que nem ganha dinheiro com a rede) tem postado Stories com o número de curtidas de cada post. “É provado cientificamente que o like vicia”, diz a pernambucana Camila Coutinho (2,4 milhões de seguidores), uma das primeiras influenciadoras do Brasil. Camila (que não é do time que anda mostrando o desempenho de suas fotos) diz estar de olho nessa discussão sobre os malefícios das curtidas para a cabeça dos usuários desde que o rapper Kanye West anunciou, no ano passado, estar conversando com diretores de redes sociais diversas sobre como as chamadas métricas da vaidade criam frustração nas pessoas. “Hoje, as empresas precisam ter responsabilidade social, e ficaria feio se o Instagram não fizesse algo em relação à saúde mental”, diz Camila.

Leo picon: 3,5 milhões de seguidores Foto: Instagram

Os especialistas não ignoram o fato de Mark Zuckerberg (dono do “Face”, do “Insta” e do “Zap”) também estar preocupado em ganhar dinheiro, mas não duvidam dos propósitos e dos benefícios de se começar uma discussão séria sobre autoestima digital. “Do ponto de vista do Facebook, ele precisa criar um ambiente saudável não só porque está se importando com a sanidade das pessoas, mas também por estar preocupado com sua própria existência a longo prazo”, diz André Miceli, coordenador do curso de Marketing Digital da Fundação Getúlio Vargas. “Mas o que fica para a sociedade é a necessidade de educação no que diz respeito ao uso dos dispositivos digitais.”

As redes sociais, inclusive, são responsáveis por uma nova síndrome, chamada FOMO (sigla para Fear of missing out ,ou “medo de estar perdendo algo”), que é a angústia e a ansiedade que sentimos diante da perfeição de viagens, de relacionamentos, de comida e tudo mais que parece incrível nas redes — e que só a gente não tem. Os likes são o resultado direto desse fetiche. “Nossa sociedade valoriza rótulos: se a pessoa tem muitos seguidores, se tem muito dinheiro…”, diz o empresário e influenciador Leo Picon (3,4 milhões de seguidores), que é pessimista sobre os possíveis benefícios da ocultação dos likes. “Elas vão continuar olhando para seguidores, comentários ou outros artifícios, buscando algum parâmetro para fundamentar o que elas consideram mais importante.” Já Camila vê com bons olhos esse momento. “Já tive FOMO várias vezes. Nós, produtores de conteúdo, sofremos as mesmas coisas que os consumidores”, diz ela, entusiasta dos estudos das tendências digitais. “Tem que estar ligado no que está acontecendo. Quem trabalha com isso precisa entender de tecnologia, não só de moda e beleza.”

Fonte: O Globo